Diego Armando Maradona: “comecei a usar drogas em Barcelona!”

| Por Lui Chaves 
A passagem de um dos maiores jogadores da história do futebol por Barcelona não foi das melhores. Dois anos; uma hepatite, uma lesão grave, uso de drogas e uma batalha campal que entrou pra história. Maradona foi apenas Maradona!

Após seis - meteóricos – anos iniciais de carreira no futebol argentino (Argentinos Juniors e Boca Juniors), Diego Armando Maradona encarou sua primeira aventura europeia em 1982; um sonho que se transformou em um enorme calvário pintado em azul e grená.
A diretoria culé pagou 1,2 milhões de pesetas (cerca de 7,4 milhões de euros) ao Boca Junior para contar com o camisa ‘10’. Mas o que era pra ser uma relação de amor e títulos, se tornou um pesadelo logo nos primeiros meses.

Em dezembro de 1982 o astro da seleção da Argentina contrai hepatite, e tem que ficar três meses afastado dos gramados. O fato desencadeou uma forte depressão em Maradona, que jamais havia ficado parado desde o início da carreira. A direção do Barça, por meio de seu presidente, o senhor Josep Lluís Nuñes, fez de tudo para que o craque se sentisse em casa, inclusive, levando familiares pra Barcelona e pagando por suas estadias e moradias. O que na verdade acabou sendo “um tiro no pé”, pois dificultou ainda mais a adaptação do jogador com a cidade e o clube.

Mas, nem só de momentos difíceis se construiu a história de Diego Maradona no Barça. Os blaugranas acabaram apenas na quarta colocação da Liga em 1982-83, mas a Copa do Rei daquela temporada, e a Supercopa da Espanha da temporada seguinte (também disputada em 1983) foram os ápices do argentino vestindo as cores do maior clube do Mundo. As duas decisões foram contra o Real Madrid. A primeira foi a da Copa do Rei, disputada no Estádio La Romareda em Zaragoza, no dia 4 de junho daquele ano. Maradona comandou a equipe azulgrana que venceu aquela decisão por 2 a 1. O camisa ‘10’ teve excelente atuação, dando passe para os dois gols do Barça na partida (Victor 32’ e Marcos 90’), conquistando assim, seu primeiro ‘caneco’ no velho continente.

Mas o momento mais especial foi sem dúvida a conquista da Supercopa da Espanha, poucas semanas depois. O primeiro jogo foi no Camp Nou, no dia 26 de junho de 1983. O Barcelona chegou a abrir 2 a 0, com gols de Carrasco (50’) e Maradona (57’), mas viu os madridistas empatarem o confronto em 2 a 2; deixando tudo igual para a volta no Santiago Bernabéu. E foi exatamente no jogo decisivo que o meia-atacante argentino escreveu seu nome na história do Barcelona, mesmo que em um capítulo pequeno, mas que vale a lembrança.

Madrid, 29 de junho de 1983 | Real Madrid 1x2 Barcelona

A torcida do Real Madrid lotava o Estádio Bernabéu com mais de 70 mil pessoas, era o primeiro torneio oficial da temporada 1983-84, e para qualquer um dos lados, vencer era fundamental para o marcar o início das campanhas naquele ano. O empate em Barcelona no jogo de ida deixava o confronto totalmente aberto, levando em conta que não existia a regra do gol qualificado naquela época. Aquela foi uma das melhores exibições da carreira de Don Diego Armando Maradona, segundo o próprio. Lances de efeito, finalizações, dribles, arrancadas; a defesa do Madrid formada por John Metgoad, San José, Francisco Bonet e José Camacho; conheceram o inferno na terra naquela tarde de domingo. O gol feito por Maradona foi de pênalti, com 19 minutos de jogo, mas o caos que ele criou foi tão grande, que até a torcida da casa o aplaudiu de pé. Algo poucas vezes visto na história do ‘El Clásico’. O título dava muita moral ao grupo para a disputa das competições que estavam por começar, e ainda mais para Maradona, que começava a se sentir em casa.
Porém, o bom momento duraria pouco. Logo na terceira rodada da Liga 83/84, em jogo contra o Athletic Bilbao, Maradona sofre uma entrada criminosa do zagueiro espanhol Andoni Goikoetxea, o que o afasta dos gramados por mais três meses, devido a uma fratura no tornozelo. Uma lástima!

Em seu livro, yo soy Diego, o lendário craque argentino conta que foi nesse momento que as drogas entraram na sua vida. A depressão por mais um período sem poder fazer o que mais gosta, levaram Maradona a conhecer a cocaína, o que segundo ele “aliviava a tensão causada pela angústia por não poder fazer o que mais gostava”. Após 106 dias sem jogar, Don Diego finalmente pode voltar aos campos. Craque que era, conduziu o Barça em uma recuperação incrível na Liga Espanhola, chegando na 2ª colocação depois de estar em 11º até a rodada 20. Na Copa do Rei, o Barça chegou até a final, perdendo para o Athletic Bilbao – que também ganhara a Liga na mesma temporada.

E foi justamente a final da Copa do Rei o último jogo de Maradona com a camisa culé. A partida foi realizada no dia 5 de maio de 1984, no Estádio Santiago Bernabéu. Após o apito final, o camisa ‘10’ blaugrana – inconformado com a derrota – partiu pra cima de um velho conhecido, o zagueiro Andoni Goikoetxea, que quebrara seu tornozelo nove meses antes. O argentino queria briga, e conseguiu! A reação de Maradona desencadeou uma pancadaria generalizada entre os jogadores dos dois clubes, que terminou com vários atletas na delegacia e imagens lamentáveis nos telejornais “esportivos” de todo o Mundo no dia seguinte.

As consequências para o badboy argentino foram muito além de alguns boletins de ocorrência. A federação espanhola suspendeu Maradona por três meses, o que deixou a diretoria do Barcelona furiosa, não com a corte, e sim com o jogador. Tamanho descontentamento fez com que o clube aceitasse uma proposta bisonha de 600.000 pesetas por seu maior craque; algo em torno de 3,7 milhões de euros (na moeda atual). O destino de Maradona seria o Napoli da Itália, algo que deixou o atleta extremamente irritado. Maradona e seus representantes aceitaram a mudança. Financeiramente arruinado devido ao alto consumo de drogas, o argentino chegou a dar a casa que tinha na cidade como forma de pagamento de dívidas, a mudança para Nápoles poderia ser benéfica para o astro. E de fato, foi!

A carreira de Don Diego foi intensa, cheia de polêmicas, mas com um clube para chamar de ‘seu’ na Europa. O Napoli foi sua casa, seu clube, e os torcedores o trataram com um Rei; assim como ele sempre sonhou ser tratado pelos culés, algo que não aconteceu. Na Catalunha Maradona nunca teve 100% da confiança das pessoas; isso incluindo o clube, a torcida e os companheiros de time. Seu comportamento individualista, tentando sempre chamar a atenção pra si, jamais foi bem visto no FC Barcelona, pois, estamos falando de um clube que tem em seu hino os dizeres: “todos unidos em força”. O Barça é uma nação dentro de outra nação, o individualismo nunca foi e nunca será bem visto dentro dessa instituição.

Em seu livro Maradona diz que “começou a usar drogas em Barcelona”, e afirma que o presidente Josep Lluís Nuñes “tinha inveja de sua popularidade, e por isso não o defendeu nos tribunais”. É sempre mais fácil transferir as responsabilidades de seus erros para outras pessoas, é mais interessante buscar respostas dessa forma. É assim que enxergo Maradona, alguém que nunca foi capaz de assumir as bobagens que fez ao longo da carreira.

É Don Diego, esquecemos de você. Temos um outro argentino para chamar de ídolo!