Meu voto é pela ressurreição de “la masia”

| Por Lui Chaves 
Após 16 anos, o Barça voltou a entrar em campo sem nenhum “canterano” entre os onze titulares

Enquanto a maioria dos culés ao redor do Mundo demonstra uma imensa preocupação com as possíveis contratações do clube para a próxima temporada, o jornalista catalão Juan Manoel Díaz, fez uma constatação preocupante na edição digital do “Diário Sport” nesta Quarta-feira, 18 de abril: a decadência da base blaugrana!

Dezesseis anos – e uma pilha de títulos – depois, o Barcelona voltou a entrar em campo sem ao menos um jogador formado nas oficinas do clube, na Catalunha. Isso aconteceu na última Terça-feira (17), contra o Celta de Vigo no Estádio Balaídos, jogo que terminou empatado em 2-2. Um dado que preocupa não só pela ausência em campo, mas pela falta de destaques em ascensão na equipe principal. Será uma escassez de talento, ou uma falha grave no processo de promoção dos jovens?  Difícil imaginar que um clube que revelou ao Mundo jogadores como Xavi, Iniesta, Messi, Fabregas, Thiago e dentre outros, tenha simplesmente perdido a mão.

Coincidência ou não, as coisas começaram a desandar depois que o senhor Josep Maria Bartomeu assumiu a presidência do clube, outro fator preocupante. Estamos deixando para traz a essência do barcelonismo, pagando fortunas por atletas e deixando de apostar na fábrica de talentos que trouxe ao futebol Lionel Messi, o maior jogador da história desse esporte.

O jornalista lembra em seu brilhante texto, que a última vez que o Barça entrou em campo sem nenhum canterano, havia sido em 02 de abril de 2002, sob o comando do catalão Carles Rexach. Vitória por 2 a 0 no Estádio San Mamés, contra o Athletic Bilbao. Foram escalados na oportunidade: Bonano; Reiziger, Christanval, Abelardo, Coco; Cocu, Rochemback, Luis Enrique; Rivaldo, Overmars e Saviola. Juan Manoel ainda exalta que o período foi um dos mais obscuros do clube, tanto no âmbito desportivo, quanto econômico.

Em um momento nostálgico do texto, o periodista recorda a memorável escalação posta a campo durante 61 minutos, em 25 de novembro de 2012 pelas mãos de Tata Martino na temporada 2012-13. Com a saída de Dani Alves no minuto 29 da primeira etapa, os 11 jogadores dispostos no gramado do estádio Cidade de Valência, haviam sido formados em ‘la masia’, lembrança que arrepia e emociona este que vos escreve. Victor Valdés; Piqué, Carles Puyol, Jordi Alba e Montoya; Thiago, Busquets, Xavi, Iniesta e Messi. Um meio campo com mais talento do que muitos clubes já tiveram em toda sua história. Na ocasião, o Barça goleou o Levante por 4 a 0. Na mesma temporada, Tata utilizou em várias oportunidades a mesma escalação, apenas com Dani Alves como sendo o único não canterano.

É preciso voltar a olhar pra casa. Será impossível termos ao menos um jogador formado no clube pra compor o banco de reservas? Será realmente que não tínhamos nenhum zagueiro de bom nível na equipe sub-20, para suprir a falta de jogadores na posição após a saída de Mascherano? Era mesmo necessária a contração de Yerry Mina? Perguntas que a cada dia que passa, ficam mais pendentes de respostas claras dessa diretoria com uma política no mínimo duvidosa.

Em Janeiro desse ano, ficou muito claro o desleixo com a base, quando perdemos para o Borussia Dortmund uma das grandes joias do clube, e da seleção espanhola. O meia armador Sergio Gomez, de apenas 17 anos, deixou o FC Barcelona após ter a multa rescisória de apenas 3 milhões de euros paga pelos alemães. Tudo indica que a arrogância e a política confusa da diretoria blaugrana, tenham sido um dos motivos para saída do atleta, que em 2017 foi eleito o segundo melhor jogador do Mundial Sub-17 -  onde a Espanha foi vice-campeã após perder a final para a Inglaterra.

Hoje no elenco principal comandado por Ernesto Valverde, temos Piqué, Jordi Alba, Sergi Roberto, Messi, Iniesta e Busquets; apenas 6, de 23 jogadores do time de cima. Ok, são todos titulares. Mas e daí? Em 16 anos apenas gastamos, sugamos tudo o que essa geração poderia nos dar. E a renovação do catálogo? Uma indústria não se sustenta sem inovação, ela necessita do algo novo. Estamos – e eu digo ‘estamos’, porque a torcida faz parte dessa máquina de sucção – esperando que Lionel Messi resolva tudo, que Iniesta encontre um passe magistral, que Piqué faça um jogo perfeito e não cometa um pênalti em uma eliminatória de Champíons; por que? Porque temos um “super-time”. Não, não temos mais um “super-time”, temos um bom time, que conta com um “super-jogador”. É impossível conversar com um torcedor do Barcelona - ou até mesmo de outros times – e não nos depararmos com a seguinte pergunta: “e quando Messi pendurar as chuteiras?” Confesso; essa reflexão me tira o chão! E me tira o chão porque não estamos produzindo, nunca soubemos comprar, somos produtores e não compradores. A realidade está muito distinta do futuro que esperamos.

É ignorância imaginar que formaremos mais um Lionel Messi nos próximos 50 anos, mas talentos aptos a dar continuidade a um clube tão gigante, tão histórico e tão belo por sua genialidade criadora, é obrigação de quem comanda essa instituição lendária. Se o Fútbol Club Barcelona é o que é hoje, foi porque o sangue que corria em la masia, foi ao longo da história derramado no Camp Nou como uma oferenda aos Deuses do futebol. Perder isso seria perder o “DNA”, e isso é inadmissível!

Que continuemos a espalhar magia e talento vestidos de azul e grená. Eu voto pela ressurreição de ‘La Masia’!