Ronaldo: por que se foi tão cedo?


| Por Lui Chaves 
Em Julho de 1996, após uma temporada primorosa no PSV Eindhoven da Holanda, Ronaldo - que ainda não recebera a alcunha de "fenômeno"- desembarcava na Catalunha para assinar com o Fútbol Club Barcelona. O Barça, que na época era presidido por Josep Lluís Nuñes, investiu cerca de 20 milhões de dólares para contratar o jogador junto aos holandeses. O jovem Ronaldo, na ocasião com 19 anos, chegava ao clube logo após conquistar a medalha de prata com a seleção brasileira, nas Olimpíadas de Atlanta, nos Estados Unidos. 
O craque brasileiro estreou pelo clube no dia 20 de Agosto de 1996, contra o San Lorenzo da Argentina, pela 30ª edição do Troféu Joan Gamper. Apesar de ter debutado frente à torcida culé, a partida não foi realizada no Camp Nou, pois o mesmo se encontrava em reforma. Jogando no Estádio Olímpico de Montjuic, O Barcelona venceu por 2 a 0; com gols de Giovanni e Pizzi. Apenas cinco dias após vencer os argentinos, no dia 25 de Agosto de 1996, o Barça recebia o Atlético de Madrid - mais uma vez no Estádio Olímpico - para a primeira partida da decisão da Supercopa da Espanha. Aquele seria o primeiro jogo em que Ronaldo encantaria a todos com a camisa azul-grená. 
O menino de apenas 19 anos tomou as rédias da partida, marcou dois gols e foi o grande destaque da goleada blaugrana por 5 a 2. O decorrer da temporada não foi diferente; Ronaldo era o ponto de desequilíbrio do time, aquele que poderia em uma arrancada desmontar todo um sistema defensivo. Que os digam os jogadores do Compostela: no dia 13 de Outubro de 96, em jogo válido pela Liga Espanhola, Ronaldo pegou a bola no meio campo, deixou sete jogadores adversários pra traz e fez um dos gols mais bonitos de sua carreira. Tal jogada foi usada pela Nike em diversas campanhas publicitárias, o que incomodou demais os defensores envolvidos na mesma. Em 2008, os sete jogadores que apareciam no vídeo em que o Fenômeno simplesmente os ignorava, entraram com uma ação judicial junto a corte espanhola, pedindo uma indenização por danos morais. Bizarro! Como já era esperado, a corte rejeitou o pedido. 
As atuações, não só no Barça, rederam ao prodígio atacante brasileiro o prêmio de melhor jogador do Mundo em 1996. Aquela temporada foi espetacular para o craque. Ronaldo marcou 47 gols em 49 jogos; média de quase 1 (0,95) gol por jogo. No mesmo período, o Barcelona conquistou a Supercopa da Espanha, a Supercopa Europeia e a Copa do Rei. Dito isso: o que aconteceu para que o Clube deixasse-o escapar em meados de 1997? 
As histórias são diversas. O que não há dúvida, é que a diretoria do Barça cometeu um erro primoroso. Muitos entendem que a situação de Ronaldo, é semelhante a de Romário; que também deixara o clube em 1995, após ter um desempenho fantástico na temporada anterior. Porém, os motivos são muito diferentes. Romário sentia falta do Rio De Janeiro, enquanto o Fenômeno afirma até hoje que nunca quis deixar a Catalunha. O futebol tem dessas coisas, nem tudo o que acontece com o jogador, tem como a base a vontade do mesmo. 
O contrato inicial de Ronaldo com o Barça continha uma cláusula liberatória, que em caso de uma proposta que agradasse o jogador e seus representantes, os barcelonistas seriam obrigados a liberá-lo mediante ao pagamento da multa. Com o desempenho deslumbrante do atacante logo em sua primeira temporada, a tal cláusula passou a tirar o sono dos diretores e presidentes do clube. Em Março de 1997, a diretoria blaugrana procurou um dos representantes do atleta, o italiano Giovanni Branchini. Na reunião, a diretoria culé ofereceu um aumento substancial de salário, em contra-partida, o clube queria redigir um novo contrato sem a cláusula liberatória. A proposta foi muito bem recebida por Branchini e os outros empresários de Ronaldo. Para todos os efeitos: o jogador jamais havia manifestado o mínimo interesse em deixar o clube, por isso, não haveria motivos para que a proposta não fosse aceita. De fato, o acordo foi fechado, e seria assinado em Julho, após o fim do calendário esportivo.  
Versão de Ronaldo e Brandini
"Reza a lenda" que a direção  do Barcelona teria se arrependido da proposta que havia feito, pois entendia que o salário oferecido arriscaria a saúde financeira do clube. Sendo assim, quando tudo parecia certo para a assinatura do novo contrato e, inclusive, com um jantar realizado para brindar o novo acordo, os representantes do craque foram surpreendidos com uma redução drástica do valor salarial  - se comparado com o ofertado alguns meses antes. Algo que deixou Brandini enfurecido e disposto a encontrar um novo clube para o brasileiro. 
"O que tirou Ronaldo do Barcelona foi a arrogância das pessoas que comandavam o clube, o jogador nunca teve a intenção de deixar o Barça. Lembro que quando dei a notícia a ele (Ronaldo), ele ficou muito chateado, pois não queria sair, estava no céu." Entrevista de Giovanni Brandini para o Diário Sport, em 2016.
Após a desilusão vivida por Ronaldo e seus representantes, as propostas que já chegavam pelo jogador, passaram a ser estudadas. A Internazionale de Milão, do então presidente Maximo Moratti, não queria deixá-lo escapar mais uma vez, pois já havia o perdido para o Barcelona um ano antes. Brandini então passou a usar a Inter para pressionar a direção Blaugrana
Versão do FC Barcelona
Segundo informou na época o então presidente Josep Lluís Nuñes, o clube catalão passou meses negociando a renovação de contrato do jogador, enquanto seus representantes tentavam maximizar os lucros. Um dia antes de a Inter anunciar o acordo com Ronaldo, o máximo mandatário culé havia dado uma declaração onde afirmou: "Ronaldo é nosso por toda vida", dando como certo um novo acordo, que prenderia o atleta no clube até  2006. No dia seguinte os representantes do atleta teriam informado os diretores do Barça que o fenômeno aceitara a proposta do clube italiano, e que a multa rescisória estaria na conta até as 15 horas daquele mesmo dia. Em declaração à imprensa no dia 20 de Junho de 1997, quando perguntado sobre a renovação do brasileiro, Nuñes respondeu: "Acabou, Ronaldo vai embora". Os italianos pagaram cerca de 28 milhões de dólares ao Barcelona; e  levaram para Milão aquele que se tornaria um dos maiores jogadores da história desse esporte. 
Não há como concluir se o desacordo partiu do lado do jogador, ou do clube. O fato é que o Barça deixou escapar um talento raro, e o atleta deixou escapar a chance de fazer história em uma instituição que está muito longe ser só um clube. Como saber até onde o papel do empresário deve ir? Tivemos recentemente o "caso Neymar", onde claramente a influência de seu pai/representante foi fundamental para a transferência do jogador para o futebol francês. A decisão de "Neymar" foi acertada? Em sua participação no programa "Resenha" da ESPN, em 19 de Novembro de 2016, Ronaldo deu a sua versão dos fatos, confira:
"Teria sido maravilhoso (permanecer no Barça), mas não foi possível e não foi por minha culpa. Um mês antes do término da primeira temporada, eu tinha chego a um acordo pra renovar o contrato. Aí na semana seguinte, o advogado e o presidente do clube, se arrependeram do acordo que  nós fizemos, acharam um absurdo pagar "aquilo tudo"e afirmaram que aceitariam que qualquer clube pagasse a cláusula. Teria sido fantástico se eu tivesse ficado lá, porque Barcelona é uma cidade incrível e o clube é gigante, mas fazer o que?"

As palavras do fenômeno vão de encontro com a versão contada por Brandini. Mas como poderemos saber quem realmente fala a verdade, sem ao menos conhecemos pessoalmente os envolvidos? Difícil! O fato é que acontecimentos como esse tem como maior afetado o torcedor, que se sente triste e lesado, mesmo que não tendo participação alguma no suposto erro. Coisas do futebol? Bom, nem sempre!