O fim de um sonho e uma história gloriosa


| Por João Henrique Braga
Como já escrevia Dante Alighieri: “O tempo passa, e o homem não percebe”. Está pequena passagem define perfeitamente o momento que o barcelonismo está vivendo neste dia. Hoje, mais um integrante do Barcelona mais vencedor da história se vai. Tão rapidamente, as coisas vão vendo seu fim. E vivemos hoje a despedida daquele que foi capaz de escrever uma das mais belas histórias trajando o sagrado manto azul-grená. 

O ano era 2010, e o Pep Team já encantava o Mundo. O Barça havia se tornado o sonho de quase todo grande jogador, mas apenas alguns tinham o prazer de serem correspondidos. E foi o que aconteceu com Javier Mascherano. No dia 27 de agosto, os clubes fecharam o acordo e Masche se transferiu para Barcelona no verão de 2010. Chegou à Catalunha cercado de muita desconfiança, tanto da imprensa quanto da torcida, afinal, o Barça de Pep era reconhecido pelo toque de bola refinado que compunha uma ideia de futebol com muita classe, e o volante era conhecido somente pela raça e explosão dentro de campo, sem nenhuma outra característica que fariam acreditar que ele poderia se encaixar tão bem na equipe. A contratação parecia fadada ao fracasso. 

O tempo passou, e agora, sete anos e seis meses depois, vemos que todas as palavras críticas foram desarmadas por nosso cão de guarda. Mascherano não apenas se firmou no Barcelona, como revolucionou sua maneira de jogar para adaptar-se à equipe. Sua evolução foi tão grande, que conseguiu se tornar titular na mesma temporada. Lutou muito, inclusive para convencer ao próprio Guardiola de sua capacidade, este que, segundo o próprio Masche, o disse em seus primeiros dias: “Sabes que vem aqui para não jogar, não?”. 

Durante sua caminhada no Barça, ele mudou seu estilo de jogar. Deixou de ser somente o volante cão-de-guarda explosivo, para se tornar um zagueiro fundamental que era indispensável na saída de bola. Antes, limitado aos desarmes precisos, se tornou também uma referência com a bola nos pés, capaz de dar passes profundos, quebrando linhas de marcação, ou cruzamentos primorosos para os atacantes.

Mas, verdade seja dita: Mascherano nunca foi sinônimo de gols. Durante todo este tempo com a camisa do Barça, balançou as redes apenas uma vez, cobrando um pênalti contra o Osasuna, em uma partida que vencemos por 7 a 1. Mas tenho certeza, que cada torcedor comemorou como se fosse o primeiro tento de uma grande partida, afinal, um jogador de sua grandeza merecia ter um gol comemorado, e ele anotou apenas somente este durante toda sua vida azul-grená, mas o suficiente para ser inesquecível. 

Durante sua caminhada com o Barça, conquistou o respeito de toda a equipe, não apenas por sua idade ou experiência, mas, principalmente, por seu caráter dentro e fora de campo. Com humildade e liderança sempre ajudando a equipe, cumprindo bem suas funções dentro de campo e auxiliando seus companheiros fosse com orientações ou incentivos. Fato é que ‘El Jefecito’, como foi apelidado pelo elenco culé, conquistou o respeito e a admiração de muitos, mas principalmente daqueles com os quais compartilhou o vestiário ao longo desses anos. Tal admiração ficou ainda mais evidente quando, após a saída de Xavi, foi eleito pelo elenco um dos capitães da equipe. Mas quem o vê jogar, sabe que a braçadeira para ele é apenas um adereço, pois a liderança faz parte de seu jeito de ser, e a exerceria independente de ter ou não o título de ‘Capità’, porque, mais do que uma honra, ser capitão é um grande dever, o qual ele sempre cumpriu com maestria. 

Enfim, chegou o fim do sonho, como o próprio ‘Jefecito’ definiu. É hora de olhar para trás e ver o quão glorioso foi o caminho que muitos condenaram ao fracasso, mas com muito trabalho, dedicação, força e a sua raça, foi capaz de ser vitorioso. 

Mascherano está saindo do Barça, mas temos certeza que o Barça jamais sairá dele. Não levará na bagagem somente 18 taças, grandes atuações, lances incríveis ou lembranças antológicas. Leva também o carinho de seus companheiros, que tanto o estimam, e de cada torcedor que com ele vibrou, sorriu, chorou e comemorou durante todo este tempo. 

Parabéns por ter honrado o sagrado manto blaugrana a cada partida que entrou em campo, e por ser exemplo para os sonhadores, mostrando que com esforço e paixão ao que fazem todos podem alcançar seus objetivos e serem vencedores.

Não devemos considerar essa despedida um adeus, apenas como uma grande cerimônia de agradecimento por tudo o que ele fez pelo clube durante esse tempo. ‘Adeus’ é uma palavra forte, que só deve ser dita a quem vai embora pra não voltar jamais. Prefiro dizer ‘até logo, afinal um dia ele vai voltar, pois no fim todos voltam para o lugar que possam chamar de seu, e Barcelona estará de portas abertas para recebê-lo... pois é o lugar de Masche. E será sempre a sua casa!