O despertar de um renegado


| Por João Henrique Braga
Cercada de muita expectativa, a temporada 2017-18 começou de maneira muito surpreendente, principalmente para a torcida culé. Após os subsequentes fracassos nas tentativas de contratações durante a última janela, – que eram e ainda são necessárias –, somados às dolorosas derrotas na Supercopa da Espanha para o maior rival, os blaugrana vão contra tudo e todos ao fazerem uma campanha de primeiro nível. 

Ainda que a temporada seja prodigiosa do ponto de vista coletivo, há também destaques individuais. Poderíamos falar de vários jogadores, como o experiente Paulinho, ou os jovens Denis e Semedo, que tem aproveitando muito bem as chances que recebem, mas um, em especial, não pode ser esquecido: o renegado Paco Alcácer. 


No verão europeu de 2016, o clube buscava um substituto para Suarez. As exigências eram as seguintes: ser um camisa ‘9’ de natureza, versátil, dinâmico e artilheiro. Após uma infinidade de nomes especulados – como Lavezzi, Van Persie, David Villa –, e outros tantos que recusaram as propostas feitas – como Nolito, Gameiro e Vietto –, no dia 30 de agosto de 2016, já no fim da janela, o clube oficializou a contratação de Paco Alcácer. Com apenas 23 anos, e vindo de uma ótima temporada, o ex valencianista chegava à Catalunha como uma grande promessa, e com a nada simples missão de fazer sombra ao então melhor ‘9’ do mundo, Luis Suárez. 


Mas ao entrar em campo, Alcácer percebeu que as coisas não seriam tão fáceis. Fez sua estreia em casa, no majestoso Camp Nou. Foi titular em um time totalmente alternativo, contra recém-promovido à primeira divisão Deportivo Alavés. Parecia o ambiente perfeito para as boas vindas do atacante, afinal, enfrentaria um rival, em teoria, muito inferior e dentro do estádio da equipe que está a defender. Entretanto, aos 66 minutos da partida Paco deu lugar a Suárez, sem deixar uma boa primeira impressão. Em sua primeira partida pelo clube, viu o Barça sucumbir contra o fraco adversário em sua própria casa por 1x2, e não conseguiu fazer nada para que o resultado fosse diferente.


As críticas e desconfiança não vieram imediatamente. Todos entendiam sua necessidade de tempo para adaptar-se ao novo clube e estilo de jogo, e para isso recebeu muitas chances. Ora como titular, ora entrando no decorrer do jogo, Paco recebia chances, mas sempre deixando a desejar. Só conseguiu anotar seu primeiro tento com a nova camisa após 707 minutos jogados, durante uma partida amistosa contra o Al-Ahli no Qatar. Muitos acreditaram que, embora sem importância para o time, o gol serviria para despertar o espírito artilheiro dos tempos de valecianista, porém não foi o que aconteceu. Ainda que na partida seguinte, no dia 21/12/2016, tenha marcado contra o Hércules, time da 3ª divisão espanhola, pela Copa do Rei, só voltaria a marcar novamente contra o Athletic Bilbao, no dia 4/2/2017, quebrando também um jejum ligueiro, já que não balançava as redes pela liga desde que estava no Valencia, em 24/04/2016. 


A essa altura, muitos já consideravam a contratação de Paco como um fracasso. O jogador já não tinha mais confiança alguma quando entrava em campo, jogava às vezes graças a pouca confiança que Luis Enrique tinha nele, mas raramente produzia algo. Com isso, os rumores de sua saída aumentavam cada vez mais. Paco foi exibido como prova da incompetência de uma diretoria que, por não ter observado e analisado corretamente, trouxe um jogador que não se encaixava no estilo de jogo do clube. Ao final da temporada, somava 8 gols em 27 jogos, número não tão mal, mas o grande problema foi a qualidade do futebol apresentado somado à quantidade de chances que o atacante desperdiçou. Mesmo que tivesse a nítida vontade de fazer algo produtivo, quase nunca conseguia executar, dando ainda mais razão aos seus críticos, que, a essa altura, já eram muitos.
Com isso, ao fim da temporada, Alcácer parecia condenado a deixar o clube. 


No início da atual campanha, para o que foi – naquele momento – decepção de muitos, a saída do jovem atacante não aconteceu. Paco continuou na equipe com o aval do novo comandante, e o Barça bateu o martelo ao dizer que não iria atrás de outro atacante.
Mas o que ninguém esperava, era que finalmente o atacante conseguiria se adaptar ao modelo de jogo, e, curiosamente, na nova plataforma de jogo implantada por Ernesto Valverde, que não utiliza um ‘9’ dentro da área, tirando até mesmo Suárez de sua zona de conforto, justamente para que a zona ‘Messi’ esteja livre para o argentino. Alcácer, antes um centroavante ‘de área’, sem movimentação, conseguiu finalmente despertar em um plano tático que tinha tudo para prejudica-lo, mas ele se propôs a conseguir. 


Paco começou sua segunda temporada da mesma maneira como terminou a primeira: desacreditado. E verdade seja dita: não se esperava dele muita coisa além do que havia feito na última época. Entretanto, para a surpresa de todos, na atual temporada Alcácer já soma 7 participações diretas em gols (5 gols+2 assistências), contra 12 (8 gols+4 assistências) da época anterior inteira.

A evolução torna-se ainda mais expressiva se considerarmos que durante a campanha 16/17 disputou 1.387 minutos em partidas oficiais e participou diretamente de gols uma vez a cada 115 minutos, enquanto na atual, ainda que tenha disputado apenas 590 minutos, consegue ser diretamente decisivo uma vez a cada 84 minutos, além de ter uma média de 0,45 gols/jogo. Ou seja, com o equivalente a 43% dos minutos que disputou da última temporada inteira, já conseguiu reduzir em 27% a média de tempo que levava para ser decisivo na conclusão dos gols. 


Vale lembrar de sua grande atuação contra o Sevilla, marcando os dois gols da vitória, contra o Villarreal, dando uma assistência para que Suárez abrisse o placar e anotando o primeiro tento barcelonista e contra o Sporting de Portugal, abrindo o marcador e garantindo a derrota da equipe lusa. Isto comprova que tem sido importante e decisivo em partidas complicadas contra rivais mais fortes e bem organizados. 


O despertar de Alcácer nesta temporada se deve a diversos fatores, dentre eles a confiança que recebeu de Valverde. O novo comandante não apenas defendeu a permanência do avançado no plantel, como também acreditou que ele poderia fazer a diferença, e deixar de ser apenas mais um no banco para se tornar mais uma arma deste novo e eficiente Barcelona, que também possui um elenco limitado. 


Como provam os números, Paco tem retribuído as chances que recebe, mas isso não é tudo. Além de ter melhorado a pontaria e distribuído algumas chances para que seus companheiros marquem, também tem sido fundamental nas partidas do ponto de vista tático. Nesta temporada já foi escalado como atacante e como ponta por ambos os lados, e conseguiu cumprir bem a tarefa tática que lhe foi designada. As mudanças em seu comportamento são fundamentais para a evolução deste aspecto, que é importante para qualquer equipe. Nesta temporada vemos no camisa ‘17’ um jogador muito mais dinâmico, que movimenta-se bem –muitas vezes fazendo movimentos em diagonal –, e consegue escapar da marcação adversária com tranquilidade. Também tem se mostrado mais atento ao que acontece dentro do gramado, se posicionando muito bem, seja para receber, ou distribuir passes, e se mantendo mais calmo quando tem bola em seus pés. Além disso, também tem sido importante para a abertura de espaços no sistema defensivo adversário, ajudando a dar profundidade ao jogo da equipe. 


Enfim, é bom ver Alcácer finalmente atuando em um nível que justifique a sua contratação. Embora tenha demorado uma temporada inteira para desencantar, toda a vontade que sempre teve de jogar melhor, unida a toda autocrítica que fazia quando não conseguia, está dando resultados, que são visíveis a cada partida para a qual ele é escalado. Mais do que nunca parece sentir-se à vontade e seguro dentro do gramado, tranquilo e feliz fazendo o que mais gosta. É certo que o momento de Paco faz com que o torcedor culé se sinta contente, não somente por vê-lo jogando tão bem, mas por saber que aquele homem inseguro e improdutivo dentro de campo já não existe mais, pois foi derrotado por um jogador que tem provado a cada partida que merece de vestir as cores do Barça.