Reflexões sobre Messi, Atletico de Madrid e Barcelona

Messi ainda é, disparado, o melhor jogador do mundo
Por MES QUE UN FAN CLUB 

Numericamente, talvez essa não seja a melhor temporada de Messi. Apesar disso, seus números passam longe de ser ruins: contando os jogos com a Argentina, são 28 jogos, 24 gols e 9 assistências. Contando apenas jogos pelo Barça, em 2016 são 8 jogos, com 8 gols e 4 assistências. Não podemos esquecer que ele teve uma grave lesão há não muito tempo atrás que o deixou afastado por 2 meses. Voltar à sua melhor forma demora um tempo e isso é natural – só precisaremos dele 100% a partir de fevereiro, que é quando realmente começa a temporada. Ainda assim, desde que voltou de sua lesão, são 15 jogos, 15 gols e 7 assistências. Se os números não são espetaculares, é somente porque o ser em questão é Lionel Messi.

Números. Reduzir o tamanho de Messi a números é quase uma blasfêmia, mas eles são bem úteis para comparar jogadores supostamente parecidos em nível de habilidade. Eu costumo dizer que o que faz de Messi o melhor não são os 2687687 gols por temporada, mas aqueles que ele marca quando realmente importa. Poderíamos ver seus gols nos títulos de Champions League do Barça, mas pra não ir muito longe ficaremos só nessa temporada. O '@barcanumbers' fez uma ótima comparação entre os atacantes dos melhores trios de ataque do mundo na atualidade, MSN e BBC:


60% dos gols e assistências de Messi acontecem quando o Barça está empatando ou perdendo. Ou seja: Messi aparece quando o time mais precisa, seja pra abrir o placar ou pra conseguir uma virada – como foi contra o Málaga, contra o Atlético (2 vezes na temporada), etc. A diferença entre ele e Cristiano Ronaldo é gritante: 0% dos gols e assistências do português vêm quando seu time mais precisa (quando está perdendo por 1-0). Comparando ambos quando seus times estão empatando, Messi marca 43% de seus gols, enquanto C. Ronaldo apenas 24% (quase metade). O momento em que o português realmente brilha é quando seu time já está goleando por 3 ou mais gols, que é quando ele contribui com 35% de seus números. Por mais que tentem, não existe a mínima comparação entre ambos.

PS: o Griezmann é muito, muito bom. E decisivo. Quase tanto pro Atlético de Madrid quanto o Messi é pro Barcelona.



Falta tática ou violência? O Atlético de Madrid é um pouco dos dois

Primeiro de tudo, é papel do árbitro impedir que os jogadores sejam violentos. Ironicamente, na Espanha funciona um pouco diferente. Especialmente em jogos do Barça, a violência é costumeiramente aceita, especialmente quando se trata de Neymar, contra quem faltas para cartão vermelho viram faltas para amarelo e as para amarelo não viram nada. Isso dito, Alberto Undiano, o árbitro de Barcelona 2-1 Atlético de Madrid, foi relativamente bem, aplicando 2 cartões vermelhos justos, apesar de ter ignorado alguns amarelos no 1º tempo.

Mas por que o Atlético de Madrid comete tantas faltas, chegando ao ponto de parecerem violentos? A resposta simples: porque eles precisam. Enfrentando um time superior ao seu, tentar jogar do mesmo jeito que seu rival é praticamente suicídio em 99% das vezes – Rayo Vallecano que o diga. O Simeone sabe disso e sua estratégia para tentar combater a superioridade de seus rivais é não deixar que eles joguem.

O conceito de falta tática ou falta profissional é mais comum no basquete que no futebol, mas o princípio é basicamente o mesmo: vale mais a pena parar um potencial ataque/contra-ataque perigoso em seu começo, evitando que o rival chegue a áreas onde possa criar perigo ou em que se você cometer uma falta tem mais chances de ser punido severamente (cartões, faltas perigosas ou pênaltis). Esse tipo de falta no começo da transição defesa-ataque faz com que sua defesa, que estava desorganizada porque você estava em fase ofensiva, possa se recompor e se reestruturar, diminuindo o risco de sofrer um gol.

Essa é provavelmente a melhor maneira de se enfrentar o Barcelona: pressiona-los em seu próprio campo em fase ofensiva (quando o Barça tem a bola), impedindo que a bola chegue fácil nos meio-campistas e atacantes, e cometendo faltas táticas na transição defesa-ataque (assim que o Barça recupera a bola). Se você for bem sutil, em 90% das vezes o árbitro não vai dar cartão e talvez nem marque a falta, porque consideram normal o ímpeto de um jogador para recuperar a bola assim que a perde. Foi assim que o Atlético de Madrid em 2013/14 superou em praticamente todos os jogos o Barça de Tata Martino: impeça que eles imponham seu jogo, pressione no campo adversário e aproveite as poucas chances que você vai ter. É sua melhor chance.

Também quase funcionou no sábado. A pressão do Atlético no campo de defesa do Barça gerou o 1-0 (em falha de Alba, é preciso dizer) e quase o 2-0, quando Augusto driblou Busquets e finalizou de longe... Mas Messi apareceu e acabou com os planos dos colchoneros. Quando você está jogando melhor, tem chances de matar o jogo e vê seu rival conseguir o empate (e posteriormente a virada), é muito difícil segurar psicologicamente o baque. É o famoso “sentiu o golpe”. E o Atlético sentiu naquele jogo, perdendo toda sua habitual compostura e calma.

Se sua estratégia envolve faltas táticas, o aspecto mais importante de seu jogo tem que ser o psicológico. Sim, o lado físico ajuda, mas na maior parte do tempo é até mais importante saber como e quando você pode cometer uma falta. Diferentemente do basquete, as faltas no futebol podem ser punidas bem severamente, então você tem que tomar três cuidados essenciais com suas faltas táticas:
  1. Cometer faltas sutis, que pareçam “leves”, sem violência, como um empurrão com o corpo – e não um carrinho, p. ex.;
  2. Fazer rotações de quem vai cometer as faltas. Quando o mesmo jogador comete várias faltas seguidas, você se arrisca a levar um cartão por acumulação de faltas;
  3. O mais importante de tudo: não torne aquilo algo pessoal.
Os jogadores do Atlético odeiam Neymar – especialmente Gabi e Juanfran. A maioria de suas faltas são inteligentes e sutis, exceto quando são contra o brasileiro. Se contra a maioria dos jogadores elas só visam interromper o fluxo do jogo, contra ele é pra machucar mesmo. Foi assim que 2 jogadores colchoneros levaram amarelo no 1º tempo – e poderiam ser mais, se o árbitro não tivesse ignorado. Esse foi o primeiro ponto chave que levou ao momento crucial da partida: a expulsão de Filipe Luis.

Se o psicológico dos colchoneros já foi afetado pelo 1-1 e por Neymar, o 2-1 foi a gota d’água. Jogar melhor que o rival e tomar a virada em 30 minutos é extremamente frustrante e Filipe Luis foi o maior reflexo disso. Não foi sutil, inteligente, nada: foi grosseira, violenta e ainda interrompeu um contra-ataque. Se existe um tipo de falta que te rende um cartão vermelho, esse é o perfeito exemplo. Godin também acabou sendo expulso depois, mas mais por ser descuidado (falta desnecessária e malandragem de Suárez em saber explorar a situação), mas o estrago estava feito ali na primeira expulsão.

O aspecto psicológico é um dos mais importantes no futebol, mas muitas vezes é ignorado. Tática e estratégia são importantes, mas um jogador sozinho tendo um dia ruim pode acabar com tudo. Valdano, lenda do Real Madrid, tem umas boas palavras sobre o tema:



Ainda não somos campeões da Liga, mas temos boas chances

O Barça é incrível, é fato. Estar 3 pontos acima do 2º e 4 pontos acima do 3º com um jogo a menos é um feito e tanto, especialmente considerando que Aleix e Arda só puderam estrear na metade da temporada, mas também existe um fator além do controle do Barça: nossos rivais pelo título simplesmente não são bons o bastante. Não leve a mal, não é que esses Atlético e Real Madrid sejam ruins – inclusive esse Atléti seria campeão em 9 de 10 edições de La Liga, considerando seu aproveitamento –, mas é que o Barcelona elevou o nível de disputa a um ponto em que qualquer falha te custe pontos importantes na briga.

O Atlético de Madrid é defensivamente incrível, talvez o melhor time do mundo nesse aspecto. Mas seu ataque é uma das razões pela qual eles provavelmente não vão ganhar nada na temporada, por mais cruel que isso pareça. Jackson Martínez, Torres e Vietto somam juntos apenas 6 gols em La Liga. Griezmann sozinho não vai salvar o time sempre. Além disso, eles não estão criando tantas chances quanto em temporadas anteriores.

A saída de Arda Turan e a temporada abaixo do esperado de Koke ajudam a explicar a queda, que se reflete no número de gols marcados pelo time (só 31 em 22 jogos). Estatisticamente, é muito difícil ser campeão de um campeonato longo ganhando a maioria de seus jogos por 1-0 ou placares similares. Contra o Barça do trio MSN então, é praticamente impossível.



O Real Madrid, por sua vez, tem o problema oposto: sua defesa simplesmente não é confiável o bastante. Eles permitem aos rivais mais chutes em direção a seu gol do que times como o Villarreal, Eibar, Málaga, Deportivo e Athletic Bilbao. Isso significa que você tem mais chances de marcar um gol contra eles do que contra esses rivais “menores”, o que é uma péssima notícia se você é um time que quer lutar por títulos contra os melhores do mundo. Se em La Liga dá pra ganhar 80% dos seus jogos assim, na Champions e em El Clásico não vai dar – o 4-0 no Bernabéu que o diga.



Pra maiores detalhes e um artigo completo sobre o tema, recomendo a leitura do post do Michael Caley. Ele diz que o Barcelona tem 90% de chances de ser campeão da Liga. Se um especialista em análises estatísticas aplicadas está dizendo, quem somos nós pra discordar?